quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A FAINA DAS SEMENTEIRAS



             A FAINA DAS SEMENTEIRAS




Entre nuvens gordas e um véu de bruma,a Natureza chora à farta a sua solidão.
No centro do Inverno rural, quando os passaros descem doloridamente às herdades espreitando o recomeço das lavouras sem o calor guloso e bárbaro de um sol assassino, as argilas grossas e emproadas sorvem a últimas águas e dão ao viandante a realissima impressão de terem um imenso celeiro ao ar livre, implorando o respeito dos homens.
A blega é sangue e epopeia, e geme por entre as maldições dos temporais e enxurradas, o céu está escuro, e um pinheiro solitário grotescamente inclinado que daqui se vê, parece um vagabundo a pedir esmola de um rasgo de sol macio.


A terra Alentejana, nestes dias cinzentos de principios de Dezembro, à espera de ciclones alvacentoos ou de simples ventanias, todas as noites a vomitarem impressões, escorre do seu corpo  escalavrado uma humidade vermelha e pegajosa e os sulcos dos alquerves parecem arrepiar-se nas planuras solitárias, bem como os chaparros, de copas crispadas pelo reumatismo da estação. A terra Alentejana toma outro aspecto, tem outro brilho,desta vez mais baço, de um azul quase melindroso, doentio, esparramado de salpicos, pardos, que dão ao chão de urtigas e bolotas uma alma singular, na tortura do clima.
Pela manhã adiante, com o vento a uivar nos espaços medonhos, que ora se esconde nas ladeirinhas  dos outeiros ora se levanta como uma praga ártica,as parelhas seguem o caminho das "folhas»,carregadas de sacos de semente. As estradas são de macadame, de pedras aguçadas, cheias de covas descomunais, e os ganhões, têm de guiar cuidadosamente as alimárias pelas bermas para se não atascarem.

Nos longos, ou aqui mesmo ao pé de nós, as mãos rudes, encortiçadas de cieiro, dos rurais, manejam os atilhos de sacaria disposto pelos alpendres; as carroças paradas parecem esculturas em relevo, na acidez do tempo; as charruas no solo,são atreladas aos animais-e os sementeiros,, largas alcofas feita no género dos esteirões algarvios, vão ser carregados de grãozinhos preciosos e postos aos ombros dos camponeses presos a uma corda.
Vêem os arados e desenterram a bicharada nociva à agricultura, e as alvéolas, atrás e à frente dos bois e das parelhas,cumprem a sua missão domestica de saneadoras das grandes terras lavradas, perdidas até ao limite dos mundos, entre o céu e  terra de uma beleza biblica,chamusacados aqui e além de uma neblina descalça e de estonteante frieza.
Vêm ainda poisando, mais ao largo, bandos de cotovias, pintassilgos e tentilhões, companheiros da liberdade, entoando hinos de alegria, num anúncio da estação das sementes. O inverno risonho e ribaldeiro, acossado de lenhas fantasmais, entra no peito e nos olhos dos ganhões como um advento de esperança e de austeridade e está a principiaqr a sua obra necessária. É preciso semear para recolher sem parança, hora após hora, dia após dia, que não tardam a aparecer os grandes aguaceiros acompanhados de granizo.
Os homens, de quando em quando, falam com a solidão, olhando o firmamento e pairam a faina benfeitora, as mãos enregeladas, os olho0s violáceos, salpicados de lágrimas, tratando de acomodar melhor os apeiros ao corpo dos animais.


Mais longe, os semeadores, naquele gesto augusto que tanto os personifica, silenciosos como as ervas e puros como a névoa da manhã, vão espalhando as doiradas sementes pela humidade dda terra revolvida e perfumada e, quem se afirme bem a olhar a paisagem no coito de alguma cabana abandonada ou no alto de algum cerro vergastado de frio, há-de pensar que o campo alentejano  é um paraiso de bondade. Tudo está à mostra dir-lhe-à que a Natureza confia nos homens como nunca confiou em qualquer parte do mundo! 

Exactamente. Os lancis à mostra estão prontos, uma correnteza de regos que se perde no horizonte de bruma e o trigo, rei dos reis, soba silencioso das herdades, que se semeia nesta altura das águas novas, é lançado à terra, como um testemunho da eternidade: prece e dádiva, é mesmo assim a vida! Todavia, se o tempo for enxuto, o lavrador tem de pensar que a colheita não se  adivinha e que, portanto, mais vale semear a seco, antes que as enxurradas venham dificultar o grangeio da ganharia e encher de incertezas o próprio trabalho do semeador. Este , no entanto, continua a semear os bagos de cereal a lanço, numa cadência perfeita, norteada pelo embelgador, que ajeita a jangada com dedos certeiros e consoante os modos  de que a faina se reveste. As formigas e as nuvens de passarada vagabunda e turbulenta, pardais, tordos estorninhos, sabe-se lá a familia de pássaros daninhos e esturdios que lá nascem, aparecem à flor do solo, remendando a paisagem de vultos caricatos e angulosos, miniaturais.


Todas as estradas estão desertas. As de alcatrão desfilam, baçamente escorridas da água das chuvas, e nem um vulto se adivinha agora para lá dos campos desnoitados de pasmo. Sopra o vento norte, que enregela os ossos da malteagem. A meia hora de caminho, homens obscuros trabalham nos « montes» e o que fazem eles ? Arranjam os utensilios de lavoura, consertam potes de ferro, retalham azeitonas novas, e os abegões serram madeira de azinho, para dar acabamento aos carros que transportam as sementes e consertam rodas ou largos varões onde as muares se atrelam, varões e rodas escavacadas nalgum balanço dos carreiros de granito ou covas de fundura mal avaliada.
Para as bandas de um terreno coutado,ouvem-se tiros de caçadeiras aopressadas em doido morticinio de peças de caça. Ao rés de um talhão de courela,passa uma lebre, lépida e esbaforida e lá longe entre uma azinheira e um piornal, um perdigueiro vvem correndo, a ladrar. No céu, bem no fundo dos plainos, uma águia está descrevendo circulos no espaço grandes e rápidos, depois mais descaídos e curtos, a aproximar-se de um terreno de olival. Por certo que vai assassinar algum coelho novo perdido da toca, ou  perdiz zaranza, de olhitos fitos no infinito, cabecinha tonta levemente inclinada, como se estivesse gozando na mais estranha pachorra, os seus derradeiros minutos de vida.
Olham-se o horizonte azimbrado e julga-se ver a Espanha, mesmo por cima da nevoaça que a paisagem oferece à vista desarmada.O  semador já gastou quase meio dia a espalhar grãos de trigo na terra lavrada. Na terra sempre bendita do Alentejo.! De quando em vez, a alcofa fica vazia e o ganhão agacha-se, põe o chapeu, o lenço ou uma pedra no sitio em que parou a faina, a dar sinal. e vem novamente encher o sementeiro para continuar a obra, que o tempo não está de confiança e é preciso evitar, o mais possivel o periodo dos grandes lamaçais. E a tarde, aos poucos vem cobrindo o enorme plaino de uma vaga tristura, de um medo imaginário de horizontes roxos, de catacumba, parecendo que, por estes sitios tão avaros de verdura, se encontra o fim do mundo. Grita-se e ninguem acode.Canta-se e ninguem ouve. Chora-se, ri-se e ninguem, nem folha açoitada, nem ave diurna se descobrem neste momento de paz..É tudo ermos.Tudo pasmado.


Em coutadas ou pequenos declives lá se ouve, pum! pum-e a tarde vem entornando mais a sua capa capa protectora por sobre esta região desambicionada. Ninguem diz que esta solidão é um viveiro autêntico de produtos essenciais à vida humana. Ninguém diz nem acredita. E no entanto, só neste dia, os semeadores semearam para além de quinhentos hectares de terreno.
As noites que aí vêm são ácidas e velhas. Noites de serão montês, cheirando a serralhas e doidos alecrins, aparvoados  e entanguidas. O frio leva os ganhões a irem às «vendas» beber aguardente seca. Nos cantis dos semeadores, um ou outro patrão mais camarada, mandou deitar umam pinga de vinho novo em gosto de gratidão pelo feito abençoado do semeador. Os carros retornam aos «montes», esfumados na alegoria da noite plena, que não tarda a chegar, alagada de cacimba. E a terra vive ! E os homens cantam baixinho trovas perdidas, angustias desoladas, esperanças doridas, e nas lapasne nos terrenos que a distância guarda,  só o céu negrejado de estrelas e a brancura insólita de certas luzes misteriosas, sabem bem o que vai acontecer....Os grãos estão lançados à voragem da gleba criadora e hão-de frutificar na paz da Natureza.! Ó Alentejo menino, imaginação de eremidas e de desgraçados! Terra de poetas ,de semeadores, de cantigas e de pão, amanhã o Alentejo também vai dar frutos novos, mais carne,mel, azeite, lã e bolotas! As horas passam e as sementes, lá para o fim do mês, despontarão em verdura anã, dando a toda a gente a esperança de que um dia o Mundo será o esforço de um ano, de um século, transformado na paz mais bem feita que os homens souberam criar, uma terra irmã do Céu!
(artigo publicado no Almanaque Alentejano-1964 da autoria de Antunes da Silva)